Deixou tudo. Libertou-se e partiu. Sem saber para onde, sem saber como, sem saber o que o esperaria. Simplesmente partiu. Nunca quisera ter o que tinha, nunca precisara de tanto. Viveu uma vida que lhe tinha sido imposta, uma série de mentiras destinadas a encobrir uma verdade feia que lhe destruia a alma.
No entanto, ele vivia essa vida de mentiras, mais por eles do que por si, para os fazer sentir uma espécie de controlo, para que acreditassem que a mentira chegava para os manter presos. Será que pensavam que eles eram cegos? Provavelmente sim, pensavam que eram tão burros que não eram capazes de ver a verdade quando ela era tão clara mesmo com todo o esforço que faziam para a encobrir?
Por isso partiu. Viveu a mentira até o sonho deles ser realizado e depois foi-se. Não disse nada a ninguém, não queria que pensassem que era doido. Mas não estaria ele doido? Afinal, ele tinha tudo e decidiu ficar sem nada. Tinha um futuro garantido do qual abdicou para andar pelas ruas. Como um vagabundo.
E, mesmo assim, ele é muito mais do que alguma vez foi. Talvez porque durante toda a sua vida a sua existência ter sido abafada e por isso nunca se ter sentido uma verdadeira pessoa.
E ele nunca lhes pedira muito. Quase nada, de facto. Foram poucas as vezes em que ele desejara algo. Não, não eram os bens materiais que o atraíam. A única coisa que queria foi a única coisa que lhe negaram.
E por isso partiu. Precisava de se encontrar a si próprio, precisava de se sentir vivo. E conseguiu-o
Morreu.
Mas morreu mais vivo do que todos nós…
Quem viu “O lado selvagem” percebe.
